Tuesday, 16 February 2010

CONTOS DO METRÔ NOVA-IORQUINO

Vivendo na cidade e dependendo do metrô como transporte, vivencia-se diariamente episódios inusitados.
Uma vez, eu trocava de linhas na estação Lexington-53rd Street, onde uma escadaria descomunal, estreita, reta e sem patamares, de 4 andares ou mais, comunica as duas linhas.
Dirigindo-me a ela, vai na minha frente um negro deficiente físico, em uma cadeira de rodas incomum, parecendo muito leve. O cidadão tinhas pernas minúsculas e atrofiadas, porém um torso respeitável e braços que eram tão grossos quanto minhas pernas. Ele ruma sem hesitação à escadaria, gira a cadeira de rodas de costas para a descida, agarra o corrimão com uma das mãos (usando uma luva grossa de couro preto) e ... ratatatatatatatatatata – DESCE DE UMA SÓ VEZ A ESCADARIA INTEIRA, DE COSTAS!!! Porra.
Fiquei rezando para que, na estação que ele fosse sair, fosse tão fácil ‘para cima’ quanto foi aqui ‘para baixo’.
Nunca mais o avistei.

Tendo vivido outro episódio, contei-o a um amigo ao telefone, e ele me assegurou que é bastante comum, já passou pela situação várias vezes. Batizei de “o trem fantasma”...
Indo do Brooklyn em direção a Manhattan, eu estava paradinho na plataforma de um de meus trens usuais, o N ou o F, não me lembro ao certo. De repente, pára um trem na minha frente, com o sinal luminoso em branco, sem nome nenhum. Estico o pescoço para dentro do trem e pergunto a um dos passageiros, “Que trem é este?”. Ao que ele responde, “Não sabemos”.
Tiro o pescoço da porta do trem e penso se estou ali mesmo ou é sonho...
Recupero-me e dirijo-me a outro passageiro, “O Senhor sabe para onde vai este trem?”. Ele responde, “Espero que para Manhattan”.
Entro no trem, sorrindo do surrealismo da situação, como muitos dos passageiros. O trem parte.
Na próxima estação, sou eu o passageiro e a mim dirigem-se os pescoços esticados, “Que trem é este?”etc. O trem segue sem nome, ninguém sabe ao certo para onde vai. Entretanto, confiantes, todos seguem sentadinhos, esperando que o trem os leve mais próximo do destino.
...
Há engarrafamentos frequentes nas linhas de metrô em Nova Iorque. Muitas vezes os trens já estão na linha quando os engarrafamentos ocorrem, e não há outra solução para os condutores – a fim de não piorar o engarrafamento – senão mudar de linha, sendo impossível prever qual e quando será a próxima mudança.
Enfim, como diz uma conhecida, “A gente vai para onde Deus manda”.
Outra inédita, também no Brooklyn: as ESTAÇÕES sem nome...
Várias estações de uma mesma linha estão em reforma. O trem pára; todas as superfícies de parede, chão e teto estão cobertas por tapumes; em lugar nenhum vê-se o nome da estação. Ocorreu-me repetidamente perguntar a pessoas na plataforma onde eu estava, e alguns não saberem que estação era!

Um perigo que se corre nas horas de pique, ao se passar nas roletas de entrada...
Há uma velocidade exata para se passar o cartão nas roletas de acesso. O passageiro experiente já percebe, só pela postura corporal de quem está na frente, se o distinto sabe passar o cartão ou vai levar uma vida inteira, e eventualmente passa para uma fila mais rápida.
As filas são longas; as pessoas devem ser eficientes e civilizadas, afinal teoricamente da destreza de cada um depende o ritmo de vida de 8 milhões de pessoas.
Em minha fila, todos os inteligentes estão passando ligeirinho. Passo meu cartão na roleta até mesmo antes de a moça na minha frente passar pela roleta. Quando me dou conta do ocorrido: a roleta não registrou o cartão dela, porém o meu – e ela vai passar com o MEU cartão, deixando-me a esperar 20 minutos, até que meu cartão seja reativado. Em desespêro – não ví outra solução – tiro-a pelo braço de minha frente e passo eu. Ela entra em pânico e começa a gritar, “Não faz isso comigo, não faz isso comigo...”
Nova Iorque é por vezes implacável.

No trem 7 do Queens, reduto de chineses e latinos, certa vez eu vinha em um trem nem tão lotado, porém sem assentos vagos. Entra uma avó chinesa caquética com o neto gordinho de uns 10 anos. Há um assento livre perto da porta, para onde o garoto corre e senta, deixando o farrapo de avó, praticamente só ossos e rugas, em pé segurando o poste. O gordinho segue sorrindo maliciosamente, como que a contar vantagem. Os passageiros perplexos perguntam-se o que estará acontecendo. (Em inglês há inclusive um adjetivo específico para este sentimento, mais intenso do que ‘perplexo’: “mortified”.) Em alguns segundos, um senhor se altera e grita ao menino, “Dê o assento a sua avó!”, ao que o garoto se recusa, “No!”. Outro senhor vai até o garoto, levanta-o pelo braço e faz sinal para a chinesa anciã sentar, ao que ela, sem falar inglês, declina com um sorriso bondoso. O garoto se altera e começa a berrar com o senhor, “Asshole! Fucker!”(não vou traduzir). Os passageiros incrédulos se entreolham.
É minha parada e tenho que sair do trem; não assistí ao desfecho da situação. Posso imaginar somente que entre os chineses, onde meninas são desprezadas e até há pouco só um filho era permitido, os meninos ajam realmente como reizinhos.

Desciplina e método são essenciais para a sobrevivência na metrópole. Uma das coisas mais difíceis para mim sempre foi equalizar as roupas no inverno para o “morning commute” (a hora do pique matinal, das 7.30 às 9). Na rua, neva e faz um frio inclemente, muitos graus abaixo de zero. Nas mal-ventiladas plataformas onde se toma os trens, fazem tranquilamente mais de 20ºC. Dentro dos trens apinhados, pior ainda... (Não vou nem comentar os malabarismos que se faz para entrar nos vagões.)
Ora, na rua a gente usa tudo o que pode contra o frio: sobretudo, manta, luvas, gorro. Dentro dos vagões, mal se aguenta uma camisa leve (em NYC, invariavelmente com gravata). O que fazer, onde colocar tudo o que se tira, se absolutamente não há espaço entre as pessoas para se segurar algo na mão, no braço ou no ombro? Em especial, com o chão úmido e imundo, resultado dos milhares de pés circulando com neve derretida?
Solução: um saco de papel, armado, dentro de uma sacola de plástico grosso, onde se coloca toda a roupa extra e as sacolas ficam em pé no chão, entre as pernas!

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